segunda-feira, 15 de junho de 2009

Lembranças e Realidade Política

Era Junho, no longínquo ano de 1985 quando, por causa da barbárie que chamam de “luta pela a democracia”, cheguei (mais cedo do que se previa) a cidade de Maputo.

Para uma criança de 9 anos que vinha de Mazucane, uma localidade a 10 Km da vila sede de Mandlakazi, que aprendeu a falar e, depois, graças a Igreja do Nazareno ali bem ao lado de casa, a ler, em Changana, antes de ser entregue ao Estado para a escolarização, tudo era um choque.

O primeiro choque foi mesmo a língua; antes mesmo de interagir com vizinhos, colegas de escola, membros da igreja, elementos da família próxima e alargada já residentes em Maputo, eu, conhecedor das minhas limitações relativamente à língua portuguesa, já sentia um medo monumental da cidade. Perceberão que, para um menino que só usava (porque falar é outra coisa) o português na escola, mudar abruptamente de tal sorte que o português passe a ser a principal via de comunicação, assusta e assustaria qualquer um.

Nos primeiros tempos, tal e qual fazemos nos primeiros passos de aprendizagem de qualquer língua via me obrigado a pensar em changana para expressar a ideia em português. É claro que a ideia fulcral se dissolvia. É por estas e outras que hoje sou adepto do ensino bilingue, de modo a que nada se perca. As nossas línguas são um vector muito útil na transmissão de conhecimento. A sua secundarização é uma barreira ao conhecimento.

Depois, era tudo novo. Eu tinha saído de um meio onde somos todos família, para um meio que não me transmitia nenhuma segurança; fora de casa não encontrava a familiaridade nem atitudes a que estava habituado nas pessoas a minha volta, nem a solidariedade que caracterizava as pessoas do meio de onde vinha.

É por estas e outras que, 24 anos depois, e de alguma forma urbanizado, confesso que o campesino ainda vive em mim. 24 anos depois, não consigo ver aquele pedaço de terra como algo distante, algo do passado. Continuo me sentindo parte daquele espaço e com direito de intervir nos assuntos locais. Uma das formas de fazer isso é ir lá frequentemente.

Foi isso que fiz há dias. Precisava ver e conviver com os meus e, zás, fiz me a estrada tendo por companhia o velho Domingos Honwana, o Xidiminguana. Ele do reprodutor do carro me contava as suas histórias, me falava do seu amor pela Paulina, me contava do roubo da sua viola e, aqui, eu disse para mim, graças a Deus que te deixaram vivo oh Madala Domingos e lembrei-me do Lucky Dube; do fim trágico.

Eu e Xidiminguana vínhamos em perfeita sintonia, no meu silêncio, de vez em quando, questionava o velho Domingos sobre alguma das suas crenças mas, logo, chegávamos a um consenso. É sábio o Domingos.

O motivo da minha ida “às origens” mudou ligeiramente quando o velho Domingos cantou para mim da PUJANÇA da FRELIMO. Ele repetia que a FRELIMO espanca; prova disso é que os colonialistas fugiram daqui. Contextualizei: o Xidimi, nesta música, fala da Frente, aquela que em 10 anos espancou o colono e o expulsou destas terras e, comecei a pensar se esta máxima espancadora é aplicável à Frelimo Partido?

Distrai-me um pouco das histórias do velho Honwana e comecei a pensar no que leio nos jornais, na blogosfera, no que vejo em programas televisivos etc. Lembrei-me das reacções ao pronunciamento do Macuacua, o Edson, sobre a proeminência do Partido Frelimo e a insignificância dos demais (como se fosse exigível outro pronunciamento do secretário de propaganda de um partido, seja ele qual for), pensei no meu novo amigo no Hi5 (o Daviz) e no movimento que dirige bem como nas expectativas localizadas a sua volta.

Se olharmos para os resultados das últimas eleições autárquicas, chegamos facilmente a conclusão de que, tal como a Frente de Libertação de Moçambique, o Partido Frelimo continua pujante, ainda esmurra como sugere Xidiminguane. Mas as autarquias são pontos demasiado localizados, urbanizados até. Na minha cabeça fervilhava a pergunta: e nas zonas rurais como aquela a que me dirigia, podemos, a vontade, fazer coro com Xidiminguana e repetirmos o que o Edson Macuacua disse?

Na minha cabeça mora ainda a ideia de que é nos espaços rurais que vive a maior parte da população moçambicana e qualquer partido que pretenda conquistar o poder, mais do que conquistar algumas simpatias nos espaços urbanos através da visibilidade que a imprensa e as novas tecnologias dão, tem e deve poder penetrar nas zonas rurais e ganhar a simpatia do conjunto de compatriotas que não têm acesso às luzes da ribalta da cidade.

Descobrir quem anda por aquelas bandas da minha casa em Manjacaze passou a ser um dos meus objectivos.

Parei no Xai-Xai, encontrei ex-colegas de escola em Mazucane. Tal como eu iam para casa. Fomos conversando e lá veio a política; como é que era o movimento político no Xai-Xai e… só me falavam das actividades da Frelimo. Perguntei, mas, e… os outros? Disseram me que há bandeiras da Renamo em alguns pontos e pouco mais.

Durante a minha estadia em Mandlakazi fui conversando com muita gente que reside na zona para me inteirar do conhecimento que tem da realidade política e dos actores políticos mais relevantes. A recorrência do discurso que denota o ressentimento de, num passado recente, muitos terem perdido tudo ou quase tudo e/ou conhecerem alguém que passou por essa má experiência às mãos dos homens do tio Afonso e a simpatia por quem sempre os protegeu, que dá a cara mesmo quando, naquela zona reclamam veementemente das condições da estrada, percebi que ali, a Renamo só existe enquanto actor de uma guerra que desgraçou muitos e não como actor político a ter em conta. A Frelimo continua embalada nos braços das gentes de lá. E o MDM? Ninguém conhece.

Poder-se-á dizer: Gaza é bastião da Frelimo mas, será que aos demais não interessa penetrar nesse bastião como uma plataforma para a conquista do almejado poder? Poder-se-á dizer que há ressentimento por causa da guerra mas, onde é que não há? O que vi ali é ou não generalizável para as demais províncias? O MDM, que pretende fazer tremer a Frelimo e a Renamo, que inserção tem a nível das localidades deste Moçambique?

Começo a dar razão ao Egídio Vaz que, no seu blog, disse: “parece-me que grande parte dos que aureolam Daviz, estão tão obcecados pelo partido em si, de tal sorte que suspeito desconhecerem da verdadeira realidade que lhes espera. Pensam em última instância, que basta a fama de Daviz e a aceitação que possui na Beira, para que a mesma se irradie pelo país adentro. Parece-me a mim, terem feito uma leitura superficial e algo apaixonada da base social que os apoia para projectarem homoteticamente às realidades tão distantes das que se vive na Beira e Maputo, por exemplo. E em última instância, Daviz Simango deixou-se enganar por grupos de políticos emergentes que procuram um lugar ao sol à custa da sua imagem”

O Egídio acrescentava que “O MDM é um partido que nasce na cidade. Sabendo que a maioria da população vive no campo, qualquer partido ganhador deverá captar a simpatia destes. Portanto, logo à partida, o MDM nasce em desvantagem; digamos, sem pernas. Precisará de erguer algumas próteses para poder competir com a Renamo, a Frelimo e PDD, seus principais adversários” para além de que “a experiência recente mostra que muito dos sonhos que nascem nas cabeças dos nossos políticos na verdade não são sonhos embaçados numa visão de Estado e da nação, mas antes, ambições mesquinhas, temperadas por alguns tiques de inveja, rancor e vingança. O perfil dos principais actores envolvidos na fundação do partido de Daviz Simango anuncia uma grande dificuldade de a breve trecho o MDM poder ter a sua própria identidade. Ao explorar em demasia as suas clivagens com a Renamo e Dhlakama em particular, receio que este partido venha a perder mais tempo a justificar a razão do seu divórcio com a Renamo e seu líder do que necessariamente a proposta de linhas de governação alternativos e viáveis. Grande parte dos actuais líderes do MDM está ávida em isolar Dhlakama do que necessariamente formar e consolidar um partido político.”

Neste quadro, creio que a Frelimo tem o ringue mais do que aberto para continuar a esmurrar os seus adversários até ao KO final. Aliás, mesmo a decadência dos partidos libertadores “arautada” por alguns fazedores de opinião, vem sendo posta em causa com as retumbantes vitórias do MPLA em Angola, da própria Frelimo nas Autárquicas e/ou do ANC aqui na RSA.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

"A outra"... Dá que Pensar

Este, de certeza, não é o meu assunto predileto mas, como cidadão, desejoso de ver uma sociedade mais equilibrada não podia deixar passar. Recebi por email e achei útil dividir. Dá que pensar, principalmente porque me preparo para dar um passo importante que me torne o "próprio" de alguém oficialmente (também).
"A outra"...

Depois de ouvir na rádio o caso da rival que queimou a casa da outra, com relatos ridículos que só não dá pra rir porque duas meninas inocentes perderam a vida, decidi enviar esse texto. Vivo numa sociedade em que a mulher perdeu a auto-estima, senão virou “propriedade”do homem rico .

As mulheres da sociedade moçambicana de hoje, classificam-se a si mesmas como a "própria" ou a "outra".

Ambos grupos parecem satisfeitos com a posição que ocupa ou tentam consolar-se com a ideia que nesta sociedade há menos homens do que mulheres.

A própria portanto, são as mulheres casadas, noivas ou namoradas que por serem "oficialmente" conhecidas ou tal, cumprem os oficiosos deveres e obrigações do nome que sustentam, sem no entanto sequer usufruírem dos plenos direitos de pedir satisfações da vida do seu marido, para que não seja intituladas de possesivas, ciumentas, ou inseguras.

Que estatuto é este?

A outra, é muitas vezes uma mulher que não tendo a "capacidade" ou possibilidade de ter um compromisso sério com um homem descomprometido, sujeita-se estar ao seu dispor quando este puder ou entender estar com ela, mas não só, podem até ser mulheres casadas insatisfeitas com a relação que têm. Muitos dizem que é pela situação financeira. Se assim for, acho que quem "vende-se" por um sustento, tem outro nome........ O mais ridículo é que hoje em dia, a própria sabe que existe a outra e a outra sabe que existe a própria.

Se as mulheres procuram afirmar-se na sociedade não será esta a melhor forma. Acho que não é um problema de falta de amor de um homem, o problema de falta de amor próprio.O que existe também são homens que são pais de família e maridos, mas só de nome. Homens casados que levam vida de solteiros e pais de família que não sabem o que é um programa de fim de semana em família.

Criam-se famílias modelos. Sim, digo modelos mas é Modelos bons de fotografia, de apareceram na revista Caras. Se calhar ainda só chamam-se família porque levam o mesmo nome e vivem no mesmo tecto.

Os filhos chamam-no de pai porque foi quem os gerou (e isso é a unica coisa que o moçambicano ainda faz bem), mas além de saberem que o dever do pai é dar o sustento a casa, pouco ou nada fazem em conjunto com os pais.Ver um pai a ajudar o filho nos trabalhos de casa, só no filme Missão Impossível 4.

Pois a desculpa é que não temos tempo, trabalhamos e o engarrafamento... mas quase que instutionalizou-se que a sexta feira é dia do homem...que sinceramente cá pra mim parece que estende-se ao sábado e muitas vezes ao domingo.

Então quando é o dia de ser pai? de ser marido? se de segunda a sexta somos todos trabalhadores...
Que exemplo de família terão esses filhos?Vá lá antes, que os homens ausentavam-se porque iam a guerra, ou tinham que trabalhar fora...
A verdade é que eu acho que quando um jovem quer curtir...tem que curtir muito, e quando quer namorar tem que namorar muito, e não é quando se casam que querem curtir.
Alguma coisa esta errada nesta ordem... O que dizer dos casamentos de hoje, quando as pessoas que se casam já sabem que este relacionamento que existe é um relacionamento feito a 3 ou a 4, ou quem sabe ainda mais.
Como irão durar? Se a base de qualquer relação humana e principalmente o casamento é o respeito, que por sinal já está perdido e a confiança nem sequer existe.
Concluindo, não sou uma mulher com problemas de auto-estima, portanto não pretendo ser a própria nem a outra de ninguém, apenas eu mesma! Para uma sociedade consciente, reflicta!
Falei e disse, Maputo 2009

terça-feira, 26 de maio de 2009

Dignidade Acima de Tudo

Dignidade Acima de Tudo
Gonçalves Matsinhe*
Pensei em escrever uma carta à Dra. Maria Helena Taipo mas, logo, desisti da ideia. Tive receio que tanto elogio junto, principalmente em público, soasse a bajulação. E ela não precisa ser bajulada. Muito menos chantageada; mesmo que o agente chantageador seja o encarregado de negócios da Embaixada do país mais rico do mundo.

É bom que se diga e se enalteçam as boas acções. É bom que se enalteça a coragem de mandar dar uma curva aos amigos quando se comportam mal e pensam que podem nos jogar à cara a nossa pobreza, nos obrigando a violar a lei.

Cheguei até a considerar a hipótese de nem se quer me pronunciar sobre este assunto. A minha consciência de cidadão não me permitiu. Tenho para mim que ser pobre não é defeito; que ser pobres não nos torna indignos e/ou não merecedores de respeito por parte de quem, pretensamente, nos pretende ajudar.

A ajuda sincera não se compadece com intimidações. Precisamos de ajuda? É claro que sim. Em muitas áreas como é o caso da saúde e, especificamente, no tocante ao HIV/SIDA, acredito que somos deficitários em recursos financeiros e até humanos mas, tal escassez, tal necessidade, não é motivo para que nos queiram perfilados na praça pública a exibir as partes íntimas (gozar connosco como sugere o editorial do notícias da sexta-feira dia 22 de Maio), como parece sugerir, o digníssimo encarregado de negócios americano em Moçambique quando sugere que dobremos as leis e as metamos na lata de lixo em troca de uns quantos dólares e médicos de que, na verdade, precisamos.

É verdade que não é pelo número de vozes que se levantem para dizer ao Sr. Tod Chapman, que Moçambique é um Estado soberano (presumo até que ele saiba) que, tal como no país do sonhador Martin Luther King e do crente Barack Obama, tem suas leis e estas devem ser cumpridas, que ele (Sr. Tod Chapman) e os seus patrícios manterão ou deixarão de manter a intenção de nos “ajudar” nas áreas por eles identificadas. O desiderato de “ajudar” ou não será cumprido como consequência de uma decisão ponderada dos Estados Unidos da América enquanto Estado soberano.

Os Estados Unidos da América têm suas leis e mecanismos próprios de as fazer cumprir. Dura Lex Sed Lex, já diziam os outros; por mais duras que sejam as leis anti-terrorismo nos EUA que obriguem uma primeira-dama de um país africano a descalçar-se no aeroporto, nunca, apareceriam coros de protesto contra tal prática por, responsavelmente, termos noção que é de lei que aquele país soberano aprovou para se defender dos maníacos que o querem atacar. Por causa desse temor fizeram passar leis anti-terrorismo que obrigam a procedimentos específicos para quem os visita, incluindo primeiras-damas.

Nós também temos leis. Na nossa pobreza soubemos e sabemos aprovar leis que regulam diversos campos de actividade no país. Aprovamos leis que nos permitem saber quem são os estrangeiros que entram no país, a que vieram, o que fazem e onde e para quem trabalham. Temos igualmente leis que determinam o perfil de pessoas que devem trabalhar em determinadas áreas e as condições para que, legalmente, possam exercer essas actividades e determinam as condições de “certificação”.

Porque será que os americanos não querem ter a sensibilidade com as nossas leis? Porque cargas de água assumem eles que as leis que regem a contratação de estrangeiros, bem como aquelas sobre os requisitos básicos para determinadas actividades (como a médica por exemplo) não devem ser cumpridas?

Os procedimentos para a contratação de mão-de-obra estrangeira são claros. Qualquer instituição bem intencionada cumpre-os. Os agentes do Estado tem responsabilidade para com os moçambicanos e não só. Não se devem permitir passar por cima de leis e procedimentos que podem, inclusive, dar azo que nos apareçam sapateiros, mecânicos, espiões e mais como médicos e/ou nutricionistas, pondo, dessa forma, em risco a vida de muitos de nós.

A actual lei do trabalho beneficiou em muito do apoio americano. Não nos esqueçamos que na época da sua concepção, um dos parceiros sociais – a CTA – tinha como principal financiador a USAID e batia-se por uma lei mais liberal e potenciador do investimento.

Mas porque a lei do trabalho surgiu da concertação de três partes e não da imposição de qualquer delas, o resultado final pode não ter agradado, não só a CTA (e por arrastamento, os seus principais financiadores a USAID, uma agência do Governo americano), mas qualquer dos outros parceiros. Aliás, foi sempre notório o desconforto dos empregadores e de algumas pessoas ligadas a agências internacionais quanto ao produto final consubstanciado na actual Lei do Trabalho.

Deste modo, os pronunciamentos do Sr. Tod Chapman, para além de consubstanciarem chantagem e uma ingerência grosseira nos assuntos internos em violação de convenções sobre a matéria, podem ser enquadrados numa estratégia para dinamitar a lei do trabalho que, depois de muito investimento americano através da CTA, não saiu como estes pretendiam.

Mas, como diz o editorial do “Notícias” já referido acima, “há lobby para fazer mudanças” e seria legítimo que este fosse desencadeado mesmo com apoio americano. O que não é legítimo é ameaçarem nos como o fazem, tentando escapara à dureza da lei que não é só para os americanos mas é para todos os que, de alguma forma, pretendam contratar e introduzir no espaço interno qualquer cidadão estrangeiro para trabalhar.

Graças a Deus a Dra. Maria Helena Taipo não tem que engolir determinados sapos principalmente quando tais sapos são servidos no sentido de abrir excepções que se constituiriam em precedente mau para o país. Amanhã seriam os chineses e os cubanos a quererem nos “oferecer” milhares de médicos e dólares que poderiam, igual e legitimamente, pretender beneficiar do tratamento já dado a outros obrigando-nos, mais uma vez, a baixar as calças.

Graças a Deus, os moçambicanos percebem que a Dra. Maria Helena Taipo não nos está a castigar exigindo que a lei seja cumprida. Está até a proteger-nos. Está a ser responsável e até avisada no tratamento destas questões com aquele interlocutor. Não nos esqueçamos que o Governo americano emite regularmente relatórios acusando os nossos países, inclusive, de ilegalidades como as que, aparentemente, estão a tentar sugerir à Ministra do Trabalho.

Temos que concordar com quem disse que a flexibilização que se pretendia com a reforma da lei do trabalho que culminou com a aprovação da lei actualmente em vigor, não devia implicar, a ausência do Estado na regulação do trabalho. A situação que aqui se aborda é um dos exemplos, de entre vários, dos domínios em que o Estado tem que ser vigilante e actuante, em defesa da nossa soberania e dos nossos interesses enquanto nação.

Concordamos igualmente que a regulação e a presença do Estado nos termos afirmados acima, deve ser ajustada às realidades concretas. É um facto que temos escassez de médicos e, perante esta realidade concreta, o Estado deve, através das instituições apropriadas, criar condições para que os médicos, sublinhe-se médicos, devidamente certificados e acreditados exerçam a sua actividade em Moçambique. É isto que me parece que a Dra. Maria Helena Taipo está a exigir. Está a dizer: venham mas mostrem ser verdadeiramente médicos e não qualquer outra coisa, e os americanos não querem. Querem um aval imediato para, mais tarde, virmos a saber que um qualquer fulano afinal não é médico de nada, era carpinteiro na Nicarágua e teve a hipótese de ganhar uns trocados como medico e cá veio.

A Embaixada dos Estados Unidos está preparada e, de certeza, dispõe de recursos, tanto humanos como financeiros, para atender à burocracia e aos custos gerados pela lei actual através da sua gigantesca estrutura técnico administrativa. Ademais, tratando-se de um sector tão sensível como a saúde, e a necessidade de ajudar os necessitados, a burocracia inerente ao processo e os seus custos não deviam, para os americanos, ser insuperáveis.

Somos pobres sim, mas somos dignos.
* Publicado nas edições de 26-27/05/2009

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Coisas Sérias Ditas Meio a Brincar

Nos semanários "Savana" e "Domingo" que, religiosamente, leio semana sim, semana sim, delicio me com as rubricas "a hora do fecho" e "bula-bula". Invariavelmente, nesses dois jornais, começo sempre pela última página e por essas rubricas.

Mas não é sobre os meus hábitos e manias na forma como abro esses jornais que vim para aqui.

Devido ao carácter descontraído daquelas rubricas, se calhar, muitos não dêm importância nem relevância ao que ali se diz. Eu dou importância. No meio de uma piada que tem como substracto coisa séria, dizem-se muitas coisas sérias que deviam nos levar a reflectir sobre muitos fenómenos.

No último "Domingo" este semanário deu destaque à situação do Comando da PRM em Tete: como chegamos àquela situação? Como permanecemos daquele jeito? Que condições e que mensagem estamos a passar para os operativos que ali trabalham? Que o Estado se desleixou com as condições físicas e que eles também se podem desleixar? De que é que esperamos para dar-lhes condições? Que o Anibalzinho ao ser apanhado por aquelas bandas e "encarcerrado" por lá volte a fugir para darmos importância àquele património vital para o funcionamento de um departamento estatal tão importante como a polícia?

O "Savana" desta semana brinda-nos com esta: "Andam episódios estranhos nas Pescas que só encontram explicação na metafísica. Recentemente registou-se um roubo selectivo de material informático, com destaque para discos duros, nos Recursos Humanos. Funcionários impunes, após processarem salários fantasmas durante 16 meses. Dizem que até o gabinete do ministro não escapou a vassourada." É sério gente, e não é novo e nem se quer é a primeira instituição onde se dão estas coisas.

De que esperamos para pôr cobro a esta situação? Que nos roubem o próprio Estado? Existem back up's que nos salvaguardem apesar dos constantes roubos de hard disks? Existirá ou haverá algum plano de criar um arquivo centralizado do aparelho do Estado? Será que o Estado está tão vulnerabilizado que basta o furto de uns tandos discos duros para que a informação se evapoure?

Estou preocupado.

Estamos a entrar (ou já estamos) em período eleitoral e, seguindo repto do Júlio Mutisse, espero sinceramente que a Democracia funcione de facto e que seja mentira que os meus camaradas "nomeadamente os secretários da maçaroca preparam previamente os actores que vão fazer as intervenções." Seria, de facto uma "democracia bem complicada" ou quase nula.

Espero bem que ao abordarmos e discutirmos os temas fundamentais que julgamos serem importantes discutir em campanha ou que entrem na agenda política, não sejamos externamente mobilizados para os abordar mas, sim, que a nossa consciência nos diga que os devemos abordar.

Tenho dito. Um abraço e bom fim de semana a todos.

PS: Mapengo, escreva-me uma carta...

quarta-feira, 29 de abril de 2009

O Gajo da Informática - E a Todos os Outros (Incluindo Juristas)

Descanso na Política. Almocei a falar ao telefone porque algumas pessoas, mesmo não sendo o assunto urgente, não quiseram me dar uma trégua; lá estavam a ligar-me em plena hora sagrada, destinada ao almoço e descanso. Abro meu email e dou de caras com esta mensagem que divido convosco abaixo.
O GAJO DA INFORMÁTICA
  1. 1 - O GAJO DA INFORMÁTICA dorme. Pode parecer mentira, mas O GAJO DA INFORMÁTICA precisa de dormir e descansar como qualquer outra pessoa. Esqueça que ele tem telemóvel e telefone em casa; ligue só para o escritório ou para o telemóvel entre as 09h00m e as 13h00 (manhã) ou entre as 15h00 e as 19h00 (tarde) de Segunda-feira a Sexta-feira. O GAJO DA INFORMÁTICA também precisa de descansar aos Sábados, Domingos, feriados e NOS DIAS QUE INDICOU DE FÉRIAS.
  2. O GAJO DA INFORMÁTICA come. Parece inacreditável, mas é verdade. O GAJO DA INFORMÁTICA também precisa de alimentar-se e tem horas para isso, TODOS OS DIAS.
  3. O GAJO DA INFORMÁTICA pode ter família. Esta é a mais incrível de todas. Mesmo sendo um GAJO DA INFORMÁTICA, precisa de descansar no fim de semana para poder dar atenção à família, aos amigos e a si próprio, sem pensar ou falar em informática, impostos, formulários, reparações e demonstrações, manutenção, vírus e etc.
  4. O GAJO DA INFORMÁTICA, como qualquer cidadão, precisa de dinheiro. Por esta você não esperava, ah? É surpreendente, mas O GAJO DA INFORMÁTICA também paga impostos, compra comida, precisa de combustível, roupas e sapatos, e ainda consome xanax para conseguir relaxar. Não peça aquilo pelo que não pode pagar ao GAJO DA INFORMÁTICA.
  5. Ler e estudar também é trabalho. E trabalho sério. Pode parar de rir. Não é piada. Quando um GAJO DA INFORMÁTICA está concentrado num livro ou publicação especializada na net ele está a aprimorar-se como profissional, logo, a trabalhar.
  6. De uma vez por todas, vale reforçar: O GAJO DA INFORMÁTICA não é vidente, não faz tarôt e nem tem uma bola de cristal para adivinhar o que as outras pessoas pensam ou fazem. Se você julgou que era assim, demita-o e contrate um PARANORMAL, um BRUXO ou um DETECTIVE. Ele precisa de analisar, planear, organizar-se e que lhe expliquemDETALHADAMENTE o que é pretendido para assim ter condições de fazer um bom trabalho, seja de que tamanho for. Prazos são essenciais e não um luxo. Se você quer um milagre, ore bastante, faça jejum, e deixe o pobre do GAJO DA INFORMÁTICA em paz.
  7. Em reuniões de amigos ou festas de família, O GAJO DA INFORMÁTICA deixa de ser O GAJO DA INFORMÁTICA e reassume o seu posto de amigo ou parente, exactamente como era antes dele ingressar nesta profissão. Não lhe peça conselhos ou dicas. Ele também tem o direito de divertir-se.
  8. Não existe apenas uma 'listagemzinha', uma 'rotininha', nem um 'textozinho', um 'programinha muito fácil para controlar isto e aquilo', um 'probleminha, que a máquina não liga', um 'sisteminha', uma 'visitinha rápida (aliás, conta-se de onde saímos e até chegarmos)'. Assim, esqueça os inha e os inho (programinha, textozinho, visitinha) ', pois os GAJOS DA INFORMÁTICA não resolvem este tipo de problemas. Listagens, rotinas e programas são frutos de análises cuidadosas e requerem atenção, dedicação. Planear, organizar, programar com concentração e dedicação, pode parecer inconcebível a uma boa parte da população, mas serve para tornar a vida do GAJO DA INFORMÁTICA mais suportável.
  9. Quanto ao uso do telemóvel: o telemóvel é uma ferramenta de trabalho.Por favor, ligue apenas quando necessário. Fora do horário de expediente, mesmo que você ainda duvide, O GAJO DA INFORMÁTICA pode estar a fazer algumas das coisas que você nem pensou que ele fazia, como dormir ou namorar, por exemplo.
  10. Pedir a mesma coisa várias vezes não faz O GAJO DA INFORMÁTICA trabalhar mais rápido. Solicite. Depois, aguarde o prazo dado pelo GAJO DA INFORMÁTICA.
  11. Quando o horário de trabalho do período da manhã vai até 13h00m, não significa que você pode ligar às 12:58 horas. Se você só se lembrou do GAJO DA INFORMÁTICA a essa hora, azar o seu, espere e ligue após o horário do almoço (lembra-se do item 2?). O mesmo vale para a parte da tarde: ligue no dia seguinte.
  12. Quando O GAJO DA INFORMÁTICA estiver a apresentar um projecto, por favor, não fique bombardeando-o com milhares de perguntas durante a reunião. Isso tira a concentração, além de dar-lhe cabo da paciência.ATENÇÃO: Evite perguntas que não tenham relação com o projecto, tipo "Quanto custou o seu portátil?" ou "O que acha que devo comprar para o meu filho jogar em casa, um portátil ou um desktop?"
  13. O GAJO DA INFORMÁTICA não inventa problemas, não faz actualizações automáticas de Windows piratas, não tem relação com vírus, em resumo, NÃO É CULPADO PELO MAU USO DE EQUIPAMENTOS, INTERNET E AFINS. Não reclame! O GAJO DA INFORMÁTICA com certeza fez o possível e dentro da legislação em vigor para você pagar menos. Se quer fazer upgrades de borla, instalar programinhas giros, etc., faça-o, mas antes demita O GAJO DA INFORMÁTICA e contrate um PICHELEIRO.
  14. Os GAJOS DA INFORMÁTICA não são os criadores dos ditados "o barato sai caro" e "quem paga mal paga a dobrar". Mas eles concordam.
  15. Informática é referente a computadores (HARDWARE OU SOFTWARE e muito raramente, os dois ao mesmo tempo), e não TV's, telemóveis e electrodomésticos, etc. Portanto, O GAJO DA INFORMÁTICA não vai ensinar-lhe a mexer no telemóvel, reparar a sua TV, etc.
  16. Existem vários tipos de GAJOS DA INFORMÁTICA e cada um tem a sua especialização. Se você parte uma perna não vai ao oculista, pois não? Assim, se o GAJO DA INFORMÁTICA é especialista em software e programação poderá não estar muito à vontade sobre HARDWARE ou REDES e vice-versa para realizar um trabalho de qualidade, portanto não lhe peça para executar trabalhos nos quais não é especialista dizendo "você consegue fazer, para que chamar outra pessoa se você é mesmo bom nisto da informática.

Assinado eu (o GAJO DA INFORMÁTICA)

Abaixo assinado, Eu, O GAJO DAS LEIS (que também descansa)

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Greve Geral - Estaka Zero - Uma Face Antiga da Intervenção

Anda-se de há uns tempos a esta parte a txunar-se o Azagaia como ícone dos desabafos (na visão de muitos) ou da música de intervenção/crítica na visão de outros.

Quero neste espaço começar a trazer a visão de outros. Não no sentido de compará-los ao Azagaia e nem de dizer quem é melhor que quem. Mas no sentido de desmistificar a ideia de que o Azagaia é o único.

Quando o Azagaia ainda cantava que “conheci uma Suzete, numa gala Jet 7, olhar discreto abanava o leque, perguntei o que é que bebe, um cocktail pedi a garsonet, disse lhe que gostava de Rap casinos e Internet, que vivia só numa flat,bla bla bla”, JÁ o ESTAKA ZERO cantava a música abaixo:


GREVE GERAL


Yea yea yea,

Liberdade de expressão! São os Guerreiros

Steve Biko, Eduardo Mondlane, Estaka Zero, Nelson Mandela

(2 caras)
O vento já não sopra do norte
A sombra da morte
É que persegue o pobre que se joga da ponte
E com pouca sorte
Procuramos arranjar maneira
De encontrar felicidade no meio de tanta miséria

Eu só queria um armário e uma mesa
Sou o operário da empresa
Que vocês privatizaram e o salário não chega
Hoje dizem que não precisam de mim
Tem uma máquina inteligente que fará todo o serviço por mim


(f… it)
Eu não quero seu salário de fome
Eu pego ma home
Eu sou o proprietário da home stream
Não importa se o primeiro ou o vice
Todos eles são folgados eu só quero meu dinheiro eu disse

Baixa a cabeça ponha essas mãos em cima
Empregado revoltado com o patrão da firma
Mão p’ra cima tenho os meus manos comigo
Se te armas em esperto acabo contigo

Coro,

O que é que fizeram que se possam orgulhar
Muitos anos de poder só nos sabem roubar
Vendo o povo na miséria não podemos calar
Heeeeeeeeee é a razão desta greve geral (2x)


(N’Star

Falaram de amor
Acabariam com a dor
E para todo trabalhador
Futuro melhor

Melhor para quem se para nós está como de antes
Só melhorou no elevado número de traficantes
E o que fazem só nos tem criado revolta
Prendem inocentes criminosos andam a solta
Resultado: a cada dia morre alguém
Que tentava numa esquina proteger o seu bem

E eles dizem o que sempre dizem e só dizem
De promessas estamos fartos queremos que concretizem
So querem saber de Money o povo que reclame
Enchem suas barrigas e o povo que se dane

Eu lamento por todos que estudam por um futuro melhor
Mas não tem condições para fazerem o ensino superior
Diz me, mas diz me com sinceridade,
Quem incentiva a corrupção e a criminalidade
Come on

Coro

(Jay P)

Nos hospitais as filas são assunto sério
Já comecei a pedir boleia para o cemitério
É o ministério que tutela por isso
E não dá conta disso
Não quer assumir o compromisso

É o estigma do SIDA
Que deixou desaparecida
Aquela esperança que existia de vida

E há mais
Se tu és pobre nunca jamais
Adquiririas os compromidos anti-retrovirais

Se o seu marido nem emprego tem
Quando voltou da Germany tinha cem
Uma MZ, RFT e um CD MilMar e um Schneider também

Quando sai de casa pega no chapa
Vai para casa buracos que estão na estrada
Direcção é a praça desemprego que ataca
O transporte é Timaka e a saúde que falta
De norte a sul a fome que mata
Pela TV vejo o holocausto vejo o fim
E um político de gravata que mente para mim
E peço o que fizeram que se possam orgulhar?

Coro


Porque, uns, recusam em reconhecer ou ver que há outros com "méritos" nesta coisa de "música de intervenção"? Será por serem boa "bandeira" e outros não?

terça-feira, 17 de março de 2009

Quantas Fórmulas Existem para Analisar um Fenómeno?

Quando em serviço ou lazer me vejo na condição de ter que sair dos centros urbanos para zonas com difícil conexão à internet, uma das coisas que mais falta me faz é o frenesim dos debates na blogosfera. Isso é assim porque aprendo muito por aqui.

Quando em meados de Fevereiro me embrei, de novo, para o Moçambique real, uma das coisas que mais se discutia em quase todo o lado era a violência doméstica cujo expoente, na altura, era um conhecido músico que, supostamente, espancou a esposa grávida de 8(?) meses.

Depois vieram as SMS's e os emails anunciando "um caso mais grave" de um conhecido empresário que espancou "gravemente" uma namorada (o que nos leva a concluir que era "namorada" e que não era assumida pelo tal empresário como verdadeira esposa?). Nos emails que publicitavam este caso, o que mais me intrigou foi a ênfase que se deu à qualidade de "colaborador" do Presidente da República ao referido sujeito.

Não sei ao que vinha esse facto quando, a questão fundamental, era a da violência doméstica. Fiquei sem saber se a qualidade de "colaborador" do Presidente da República por si só afastava o indivíduo em causa de qualquer desatino que desemboque em violência seja ela qual for. Mas isso não vem ao caso.

O caso é que, nos dois casos, as condenações vieram de todo o lado, o mediatismo de um tratou de tudo e a mediatização do caso do "empresário" funcionou como linchamento da sua personalidade, antes mesmo de um juiz, em sede de julgamento, sentenciar condenando qualquer um deles.

A opinião pública, num dos casos, com ajuda de quem deve defender a legalidade enquanto defensor da legalidade e dos direitos humanos, tratou de condenar o homem. É que a presunção de inocência é de lei; e não de qualquer lei.

Numa conversa durante o fim de semana, na minha condição de jurista, e aproveitando os ensinamentos que venho tirando da blogosfera, numa roda em que o caso do músico foi aflorado, aproveitei para questionar: vocês não admitem a hipótese de as coisas terem se passado diferentemente?

A resposta foi um NÃO redondo. Houve quem avançasse que houve um pedido de desculpas do dito cantarino. Foi se acrescentando que a minha condição de Homem, e por passar muitos tempos no Guijá, Chicualacuala, me impelia a entender o tipo e a tentar justificar as suas atitudes.

Perguntei de que é que o cantarino se tinha desculpado, se da violência ou das causas que levaram a tal. Ninguém me disse nada sobre a questão.

Inspirado pelos argumentos que se seguiram sugeri que não me cabia justificar a atitude do homem mas, também, era importante tentar perceber, o que o levaria a cometer aquele desatino. Simples antipatia pelas amigas? Simples capricho de a querer ver só? Será o indivíduo desiquilibrado a ponto de aquecer água para "aquecer" as amigas da esposa? Para não ser acusado de "justificador" e parcial avancei num sentido diferente do que certos Homens presentes avançaram afirmando:

(i) imaginem que, reconhecendo as fraquezas da carne o homem tenha dito a mulher: "querida eu te adoro mas, por favor, não traga estas suas amigas cá para casa se não vão nos criar complicações, a carne é fraca."

(ii) imaginem que, num desses dias, o homem volta depois de uma jornada de trabalho, encontra a sua querida esposa com "aquelas" amigas, vai para dentro de casa e, em reconhecimento de que a mulher está "nos últimos dias" de gravidez, como bom marido, prepara ele próprio a água para o banho.

(iii) imaginem também, que como bom esposo, ele chama a esposa e lhe chama atenção da conversa havida dias antes sobre "aquelas" amigas, e esta se exalta e profere palavrões, por exemplo do género, "ainda que fosses homem".

(iv) o tipo irado com aquelas palavras, e com a desobediência da mulher com relação ao assunto "daquelas" amigas, não se controla e dá 1, duas, bofetadas a esposa (reparem que o bebé nem estava em risco o que significa que o espancamento foi cirúrgico).

(v) imaginem que "aquelas" amigas, sejam daquelas que não respeitam a ideia de que em "briga de casal não se mete colher" intervenham e "caiem em cima" do pobre moço, que impotente perante a ira, para se defender do ataque feroz da turma, recorre à panela com a água que se destinava ao seu banho e joga na direcção daquelas amigas.

Se pensássemos assim a conclusão seria a mesma? O que se seguiu foram tentativas de justificação.

Não digo que as coisas se possam ter desenrolado assim, mas porque corremos logo para diabolizar o homem sem, antes, pensarmos que as coisas podem não ser como as amigas contaram? Porque não se colocar no lugar do tipo e acreditar que ele não seja maluco para, do nada, proibir amizades da esposa, aquecer água e deitá-las etc?

Não se trata de tentativa de justificação da violência cometida (que é condenável sempre) mas, uma chamada de atenção para não corrermos para condenações quando dispomos de poucos dados e só conhecemos a história de uma lado e nem se quer estamos preocupados com o que pode ter acontecido e com o que pode ter levado àquela situação.