segunda-feira, 22 de junho de 2009

Conspirações, Ano Eduardo Mondlane e Independência

Martin de Sousa Mondlane escreveu no “Notícias” de sexta-feira dia 19 de Junho, um artigo de opinião igualmente publicado no seu blog “Soldado Raso,” intitulado “Conspiração Teorizada.”

A tese do Martin Mondlane centra-se no aproveitamento político que o MDM e o seu líder, o senhor Daviz Simango têm feito do famigerado e largamente condenado atentado e da possibilidade de o tal atentado ter sido pensado, executado por gente do MDM e atribuído à Renamo, ficando Daviz Simango, mais uma vez, com a figura de coitadinho, apelando dessa forma às simpatias dos moçambicanos.

Todo o moçambicano de bom senso ficou chocado com a estória do atentado. De políticos a membros da sociedade civil (aqui para significar organizações não partidárias) foram muitas as vozes que se juntaram para condenar tão vil acto.

Apesar de ter recebido as mensagens de que o Martin de Sousa Mondlane fala no seu artigo, confesso, não me ocorreu a possibilidade de o atentado ter sido forjado. Os pronunciamentos de alguns responsáveis da Renamo empurraram me para a ideia de que esta organização assumia que o acto tinha sido protagonizada por gente sua, seja a mando de Dhlakama ou não.

Mas a Renamo é como é. Funciona como um coro desafinado, qualquer um berra em função das percepções que tem em cada momento, muitas vezes na avidez de protagonismo em situações que só a ridiculizam. Isto para dizer que, embora me pareça remota, a tese do Martin de Sousa merece algum aprofundamento.

É que, enquanto Moçambique e os moçambicanos se solidarizavam ao MDM e ao seu líder por actos atentatórios às liberdades plasmadas na constituição, o MDM e o seu líder, usavam o acontecido não no sentido da responsabilização dos autores de tão vil acto mas, sim, para mobilização dos moçambicanos para a sua causa.

De facto, a mensagem citada pelo Martin de Sousa e confirmada pelo “Reflectindo” no seu blog “Reflectindo Sobre Moçambique) segundo a qual a “democracia em Moçambique está cada vez mais a deteriorar-se só você pode salvar Moçambique “ não sugere outra coisa se não o chamamento à junção ao MDM em função do acontecido. Daí hoje me perguntar, é completamente descabida a tese do Martin?

Seja como for, a violência é de todo condenável. Aproveitar-se da violência para ganhos políticos, como plataforma de mobilização é, quanto a mim, legitimar a violência como recurso político o que é errado.

Mudemos de assunto.

Quando esta coluna sair, terei voltado ao meu dia a dia de trabalho depois de ter estado em Nwajahane. Depois de ouvir discursos exaltadores dos feitos de Eduardo Mondlane. Discursos em que se vai repetir o que se disse no simpósio de há dias e em vários outros fóruns onde se discute a vida e obra de Eduardo Mondlane.

Mas, mais do que isso, e como sugere Júlio Mutisse lá no seu blog “Ideias Subversivas” é “necessário que peguemos a construção a volta dos nossos heróis e a usemos como plataforma inspiracional para os desafios do presente e do fututo.” É necessário que ”renovemos o "Lutar por Moçambique" e coloquemos os ideais lá expressos ao serviço dos desafios do momento” ao mesmo tempo que, como sugere ainda Júlio Mutisse, “usemos o que sabemos de figuras como Filipe Samuel Magaia herói (e outros) em benefício das lutas que travamos pelo bem estar da nação, independentemente dos critérios que possam ter conduzido a sua heroificação.”

É necessário que falemos dos nossos heróis. Esta semana tem se falado, e muito, de Eduardo Mondlane. Mas, mais do que falar, é necessário que como diz Mapengo, consigamos trazer Mondlane para “lutar por Moçambique” no século XXI.

Alio me a todos os que assim pensam e coloco este desafio à nação também, porque, como diz o refrão de uma música que ouvi cantar na igreja por muito tempo (aqui adaptada a realidade política), “o sol não se põe na alvorada, a frente mais triunfos virão, se nas nossas forças confiarmos, arregaçarmos as mangas e trabalharmos, é certo que triunfaremos” (versão corecta: o sol não se põe na alvorada, a frente mais triunfos virão, se em Seu nome confiarmos, proclamarmos a salvação, o sol não se põe na alvorada).

Outro assunto.

Esta semana o país completa 34 anos após o advento de 25 de Junho de 1975. Para além de festa, a data deveria marcar um momento de reflexão sobre o que foi sonhado pelos libertadores, o que temos de momento e o que se perspectiva para o futuro.

Que país sonhou Mondlane? Se ele “acordasse” sentir-se-ia identificado com o país que somos? Onde estão os desvios? Como corrigi-los? São muitas as questões que nos podemos colocar.

É certo que há muito ainda por fazer. Mas há sinais de que as coisas começam a mudar e se olharmos a volta sentiremos esses sinais de mudança. Mas mais do que reconhecer a existência de que há ainda muito a fazer, é necessário que tracemos correctamente as prioridades e hajam estratégias claras e funcionais sobre como fazer o que identificamos como algo por fazer.

Será que o 25 de Junho nos dará essa oportunidade ou teremos que esperar as eleições?

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Lembranças e Realidade Política

Era Junho, no longínquo ano de 1985 quando, por causa da barbárie que chamam de “luta pela a democracia”, cheguei (mais cedo do que se previa) a cidade de Maputo.

Para uma criança de 9 anos que vinha de Mazucane, uma localidade a 10 Km da vila sede de Mandlakazi, que aprendeu a falar e, depois, graças a Igreja do Nazareno ali bem ao lado de casa, a ler, em Changana, antes de ser entregue ao Estado para a escolarização, tudo era um choque.

O primeiro choque foi mesmo a língua; antes mesmo de interagir com vizinhos, colegas de escola, membros da igreja, elementos da família próxima e alargada já residentes em Maputo, eu, conhecedor das minhas limitações relativamente à língua portuguesa, já sentia um medo monumental da cidade. Perceberão que, para um menino que só usava (porque falar é outra coisa) o português na escola, mudar abruptamente de tal sorte que o português passe a ser a principal via de comunicação, assusta e assustaria qualquer um.

Nos primeiros tempos, tal e qual fazemos nos primeiros passos de aprendizagem de qualquer língua via me obrigado a pensar em changana para expressar a ideia em português. É claro que a ideia fulcral se dissolvia. É por estas e outras que hoje sou adepto do ensino bilingue, de modo a que nada se perca. As nossas línguas são um vector muito útil na transmissão de conhecimento. A sua secundarização é uma barreira ao conhecimento.

Depois, era tudo novo. Eu tinha saído de um meio onde somos todos família, para um meio que não me transmitia nenhuma segurança; fora de casa não encontrava a familiaridade nem atitudes a que estava habituado nas pessoas a minha volta, nem a solidariedade que caracterizava as pessoas do meio de onde vinha.

É por estas e outras que, 24 anos depois, e de alguma forma urbanizado, confesso que o campesino ainda vive em mim. 24 anos depois, não consigo ver aquele pedaço de terra como algo distante, algo do passado. Continuo me sentindo parte daquele espaço e com direito de intervir nos assuntos locais. Uma das formas de fazer isso é ir lá frequentemente.

Foi isso que fiz há dias. Precisava ver e conviver com os meus e, zás, fiz me a estrada tendo por companhia o velho Domingos Honwana, o Xidiminguana. Ele do reprodutor do carro me contava as suas histórias, me falava do seu amor pela Paulina, me contava do roubo da sua viola e, aqui, eu disse para mim, graças a Deus que te deixaram vivo oh Madala Domingos e lembrei-me do Lucky Dube; do fim trágico.

Eu e Xidiminguana vínhamos em perfeita sintonia, no meu silêncio, de vez em quando, questionava o velho Domingos sobre alguma das suas crenças mas, logo, chegávamos a um consenso. É sábio o Domingos.

O motivo da minha ida “às origens” mudou ligeiramente quando o velho Domingos cantou para mim da PUJANÇA da FRELIMO. Ele repetia que a FRELIMO espanca; prova disso é que os colonialistas fugiram daqui. Contextualizei: o Xidimi, nesta música, fala da Frente, aquela que em 10 anos espancou o colono e o expulsou destas terras e, comecei a pensar se esta máxima espancadora é aplicável à Frelimo Partido?

Distrai-me um pouco das histórias do velho Honwana e comecei a pensar no que leio nos jornais, na blogosfera, no que vejo em programas televisivos etc. Lembrei-me das reacções ao pronunciamento do Macuacua, o Edson, sobre a proeminência do Partido Frelimo e a insignificância dos demais (como se fosse exigível outro pronunciamento do secretário de propaganda de um partido, seja ele qual for), pensei no meu novo amigo no Hi5 (o Daviz) e no movimento que dirige bem como nas expectativas localizadas a sua volta.

Se olharmos para os resultados das últimas eleições autárquicas, chegamos facilmente a conclusão de que, tal como a Frente de Libertação de Moçambique, o Partido Frelimo continua pujante, ainda esmurra como sugere Xidiminguane. Mas as autarquias são pontos demasiado localizados, urbanizados até. Na minha cabeça fervilhava a pergunta: e nas zonas rurais como aquela a que me dirigia, podemos, a vontade, fazer coro com Xidiminguana e repetirmos o que o Edson Macuacua disse?

Na minha cabeça mora ainda a ideia de que é nos espaços rurais que vive a maior parte da população moçambicana e qualquer partido que pretenda conquistar o poder, mais do que conquistar algumas simpatias nos espaços urbanos através da visibilidade que a imprensa e as novas tecnologias dão, tem e deve poder penetrar nas zonas rurais e ganhar a simpatia do conjunto de compatriotas que não têm acesso às luzes da ribalta da cidade.

Descobrir quem anda por aquelas bandas da minha casa em Manjacaze passou a ser um dos meus objectivos.

Parei no Xai-Xai, encontrei ex-colegas de escola em Mazucane. Tal como eu iam para casa. Fomos conversando e lá veio a política; como é que era o movimento político no Xai-Xai e… só me falavam das actividades da Frelimo. Perguntei, mas, e… os outros? Disseram me que há bandeiras da Renamo em alguns pontos e pouco mais.

Durante a minha estadia em Mandlakazi fui conversando com muita gente que reside na zona para me inteirar do conhecimento que tem da realidade política e dos actores políticos mais relevantes. A recorrência do discurso que denota o ressentimento de, num passado recente, muitos terem perdido tudo ou quase tudo e/ou conhecerem alguém que passou por essa má experiência às mãos dos homens do tio Afonso e a simpatia por quem sempre os protegeu, que dá a cara mesmo quando, naquela zona reclamam veementemente das condições da estrada, percebi que ali, a Renamo só existe enquanto actor de uma guerra que desgraçou muitos e não como actor político a ter em conta. A Frelimo continua embalada nos braços das gentes de lá. E o MDM? Ninguém conhece.

Poder-se-á dizer: Gaza é bastião da Frelimo mas, será que aos demais não interessa penetrar nesse bastião como uma plataforma para a conquista do almejado poder? Poder-se-á dizer que há ressentimento por causa da guerra mas, onde é que não há? O que vi ali é ou não generalizável para as demais províncias? O MDM, que pretende fazer tremer a Frelimo e a Renamo, que inserção tem a nível das localidades deste Moçambique?

Começo a dar razão ao Egídio Vaz que, no seu blog, disse: “parece-me que grande parte dos que aureolam Daviz, estão tão obcecados pelo partido em si, de tal sorte que suspeito desconhecerem da verdadeira realidade que lhes espera. Pensam em última instância, que basta a fama de Daviz e a aceitação que possui na Beira, para que a mesma se irradie pelo país adentro. Parece-me a mim, terem feito uma leitura superficial e algo apaixonada da base social que os apoia para projectarem homoteticamente às realidades tão distantes das que se vive na Beira e Maputo, por exemplo. E em última instância, Daviz Simango deixou-se enganar por grupos de políticos emergentes que procuram um lugar ao sol à custa da sua imagem”

O Egídio acrescentava que “O MDM é um partido que nasce na cidade. Sabendo que a maioria da população vive no campo, qualquer partido ganhador deverá captar a simpatia destes. Portanto, logo à partida, o MDM nasce em desvantagem; digamos, sem pernas. Precisará de erguer algumas próteses para poder competir com a Renamo, a Frelimo e PDD, seus principais adversários” para além de que “a experiência recente mostra que muito dos sonhos que nascem nas cabeças dos nossos políticos na verdade não são sonhos embaçados numa visão de Estado e da nação, mas antes, ambições mesquinhas, temperadas por alguns tiques de inveja, rancor e vingança. O perfil dos principais actores envolvidos na fundação do partido de Daviz Simango anuncia uma grande dificuldade de a breve trecho o MDM poder ter a sua própria identidade. Ao explorar em demasia as suas clivagens com a Renamo e Dhlakama em particular, receio que este partido venha a perder mais tempo a justificar a razão do seu divórcio com a Renamo e seu líder do que necessariamente a proposta de linhas de governação alternativos e viáveis. Grande parte dos actuais líderes do MDM está ávida em isolar Dhlakama do que necessariamente formar e consolidar um partido político.”

Neste quadro, creio que a Frelimo tem o ringue mais do que aberto para continuar a esmurrar os seus adversários até ao KO final. Aliás, mesmo a decadência dos partidos libertadores “arautada” por alguns fazedores de opinião, vem sendo posta em causa com as retumbantes vitórias do MPLA em Angola, da própria Frelimo nas Autárquicas e/ou do ANC aqui na RSA.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

"A outra"... Dá que Pensar

Este, de certeza, não é o meu assunto predileto mas, como cidadão, desejoso de ver uma sociedade mais equilibrada não podia deixar passar. Recebi por email e achei útil dividir. Dá que pensar, principalmente porque me preparo para dar um passo importante que me torne o "próprio" de alguém oficialmente (também).
"A outra"...

Depois de ouvir na rádio o caso da rival que queimou a casa da outra, com relatos ridículos que só não dá pra rir porque duas meninas inocentes perderam a vida, decidi enviar esse texto. Vivo numa sociedade em que a mulher perdeu a auto-estima, senão virou “propriedade”do homem rico .

As mulheres da sociedade moçambicana de hoje, classificam-se a si mesmas como a "própria" ou a "outra".

Ambos grupos parecem satisfeitos com a posição que ocupa ou tentam consolar-se com a ideia que nesta sociedade há menos homens do que mulheres.

A própria portanto, são as mulheres casadas, noivas ou namoradas que por serem "oficialmente" conhecidas ou tal, cumprem os oficiosos deveres e obrigações do nome que sustentam, sem no entanto sequer usufruírem dos plenos direitos de pedir satisfações da vida do seu marido, para que não seja intituladas de possesivas, ciumentas, ou inseguras.

Que estatuto é este?

A outra, é muitas vezes uma mulher que não tendo a "capacidade" ou possibilidade de ter um compromisso sério com um homem descomprometido, sujeita-se estar ao seu dispor quando este puder ou entender estar com ela, mas não só, podem até ser mulheres casadas insatisfeitas com a relação que têm. Muitos dizem que é pela situação financeira. Se assim for, acho que quem "vende-se" por um sustento, tem outro nome........ O mais ridículo é que hoje em dia, a própria sabe que existe a outra e a outra sabe que existe a própria.

Se as mulheres procuram afirmar-se na sociedade não será esta a melhor forma. Acho que não é um problema de falta de amor de um homem, o problema de falta de amor próprio.O que existe também são homens que são pais de família e maridos, mas só de nome. Homens casados que levam vida de solteiros e pais de família que não sabem o que é um programa de fim de semana em família.

Criam-se famílias modelos. Sim, digo modelos mas é Modelos bons de fotografia, de apareceram na revista Caras. Se calhar ainda só chamam-se família porque levam o mesmo nome e vivem no mesmo tecto.

Os filhos chamam-no de pai porque foi quem os gerou (e isso é a unica coisa que o moçambicano ainda faz bem), mas além de saberem que o dever do pai é dar o sustento a casa, pouco ou nada fazem em conjunto com os pais.Ver um pai a ajudar o filho nos trabalhos de casa, só no filme Missão Impossível 4.

Pois a desculpa é que não temos tempo, trabalhamos e o engarrafamento... mas quase que instutionalizou-se que a sexta feira é dia do homem...que sinceramente cá pra mim parece que estende-se ao sábado e muitas vezes ao domingo.

Então quando é o dia de ser pai? de ser marido? se de segunda a sexta somos todos trabalhadores...
Que exemplo de família terão esses filhos?Vá lá antes, que os homens ausentavam-se porque iam a guerra, ou tinham que trabalhar fora...
A verdade é que eu acho que quando um jovem quer curtir...tem que curtir muito, e quando quer namorar tem que namorar muito, e não é quando se casam que querem curtir.
Alguma coisa esta errada nesta ordem... O que dizer dos casamentos de hoje, quando as pessoas que se casam já sabem que este relacionamento que existe é um relacionamento feito a 3 ou a 4, ou quem sabe ainda mais.
Como irão durar? Se a base de qualquer relação humana e principalmente o casamento é o respeito, que por sinal já está perdido e a confiança nem sequer existe.
Concluindo, não sou uma mulher com problemas de auto-estima, portanto não pretendo ser a própria nem a outra de ninguém, apenas eu mesma! Para uma sociedade consciente, reflicta!
Falei e disse, Maputo 2009