quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Os Nossos Compatriotas Zangados (2) A Razão

A saga iniciada aqui, derivada do debate que corre aqui e agora aqui continua. Agora vamos falar da razão (ou da falta dela).



Os Nossos Compatriotas Zangados (2) A Razão



Por E. Macamo


Fernando Couto divaga, sobre os “Corvos”: A planar te contemplo/senhor da altura/admiro-te e esqueço/que és abutre em miniatura. E eu sempre pensei que Mia Couto fosse um produto destes inúmeros acasos que Moçambique vai produzindo por aí sem a mínima capacidade de apreciar devidamente a sua qualidade. Afinal é tudo genético. Mas é mesmo isso, a beleza quando se cruza com a imaginação é capaz de tudo. Até mesmo de nos fazer esquecer o que há mais para além das aparências. É o mesmo com os nossos compatriotas zangados. Eles têm uma particularidade muito simples. Eles têm sempre razão, mesmo quando estão total e irremediavelmente enganados. E não só. Ter razão é uma prerrogativa apenas conferida a eles. Mais ninguém pode ter razão neste país. Só eles. Pior ainda: ai daquele que não procura ter razão, mas atreve-se a emitir opinião na esfera pública. Ai dele! Priva-os da possibilidade de poderem afirmar os direitos de autor que eles detêm sobre a razão.


Explico-me melhor. A indignação que caracteriza alguns dos nossos compatriotas faz deles pessoas moralmente superiores. Não basta, por exemplo, estar contra a corrupção e a desigualidade social. É necessário que essa oposição se manifeste publicamente em forma de pronunciamentos incendiários contra o que está mal. Isso vinca a sua superioridade moral ao mesmo tempo que estabelece os critérios de avaliação de qualquer pronunciamento. Há dois momentos cruciais neste processo. O primeiro é empírico, isto é consiste em constatar o que de facto existe. Isto é muito importante. No nosso país há funcionários públicos desonestos; no nosso país há instituições públicas que não funcionam bem, no nosso país há políticos normais, isto é que estão preocupados consigo próprios; no nosso país existem membros de um partido que abusam do seu poder para fazer chantagem sobre os demais cidadãos; enfim, no nosso país há coisas que não andam bem.


Agora, vamos prestar atenção ao segundo momento porque é crucial para a anatomia da razão dos nossos compatriotas zangados. O “há” não é suficientemente forte para sustentar a indignação. O “há” sugere a ideia de que sejam apenas algumas pessoas que são assim. Ou algumas instituições. E isso é pouco, não é motivo de indignação. É preciso transformar o “há” em “é”. O nosso país é corrupto, as instituições funcionam mal, os políticos só estão preocupados consigo próprios, o partido no poder faz chantagem sobre os demais. Assim já dá para ficar indignado. Para quê meio termo quando as questões podem ser colocadas de forma mais completa e sem medida? Reparem que assim colocadas as questões é difícil não se ter a forte convicção de que só não quer ver quem não quer ver. Aliás, esta expressão é frequente. Só não quer ver quem não quer ver.


Nestas circunstâncias, isto é, neste ambiente envenenado, aparecer alguém a aconselhar medida na análise das coisas é acto de perfídia. Está tudo mal. Que projectos obscuros é que essa pessoa está a desenvolver? O que quer? Porque alinha com os maus ao invés de ficar com os bons? Os maus são os que são responsabilizados pela “podridão” – usa-se esta expressão também – e os bons são os que têm esta rara capacidade moral de se indignarem. Portanto, é neste contexto altamente envenenado para o debate racional que a esfera pública se transforma num mercado de transação de certezas. Debater passa a ser confirmar as razões da indignação. É preciso dizer isto sempre. O nosso país está mal, os nossos governantes não prestam, a coisa está má. Se surge alguém a dizer isto, batem-se palmas ruidosamente e aponta-se para essa pessoa como mais alguém que vê que as coisas estão mal. É mesmo assim que titulam a coisa: mais um que não está contente com o estado das coisas. Se esse alguém for uma pessoa identificada normalmente com os “maus”, estilo algum veterano da luta armada ou coisa parecida, melhor ainda. Mesmo fulano de tal está cheio até aqui, exclamam triunfalmente com a palma da mão encostada como boné na testa. Se no dia anterior essa mesma pessoa tiver dito que as coisas não estão assim tão mal, saiem todos à rua a gritar “pois é, que mais poderia ele dizer!”. Esta é a anatomia da razão e do debate de ideias em Moçambique.


A falar admiramos os nossos analistas políticos e esquecemos que são políticos intolerantes em miniatura.  

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